Eu venho passando do inglês para o português um livro pequeno, publicado em 1938. Logo na primeira página, a autora, Eunice Ingham, explica por que escolheu o título: Stories the Feet Can Tell, histórias que os pés podem contar.
Ela é chamada de mãe da reflexologia. Foi ela quem organizou a reflexologia como a gente conhece hoje. Para fechar a Semana Mundial da Reflexologia, eu quis apresentá-la de um jeito diferente: pelas palavras dela, tiradas do livro dela.
A linha do tempo completa, de FitzGerald até ela, eu já contei em história da reflexologia: de onde veio o que se pratica hoje. Aqui o assunto é a pessoa e o que ela deixou escrito.
Quem foi Eunice Ingham
Ela trabalhava nos Estados Unidos. No prefácio do livro, se apresenta assim:
Como autora deste pequeno livro, procurarei trazer à luz e explicar a localização exata dos vários reflexos nos pés, conforme descobertos por meio de estudo cuidadoso em minha prática como fisioterapeuta […]
No começo dos anos 1930, ela trabalhava no consultório do médico Joe Shelby Riley, que se interessava pela terapia de zonas. Quem conta o que veio depois é o sobrinho dela, Dwight Byers, que trabalhou ao lado da tia por muitos anos: FitzGerald tinha concentrado a terapia de zonas principalmente nas mãos, e ela pensou que, se as mãos respondiam, havia outra parte do corpo ainda mais sensível, o pé. Levou essa ideia a Riley, recebeu o incentivo dele e começou a desenvolver a reflexologia nos pés.
No livro, ela não se apresenta como quem criou tudo sozinha. Registra que o trabalho dela nasceu do estudo da terapia de zonas e agradece a Riley e à esposa dele. E descreve a base da qual partiu:
Um estudo deste diagrama colocará graficamente na mente as zonas do corpo. Como existem dez dedos nas mãos e dez dedos nos pés, podemos conceber dez zonas nos membros e em todas as partes do corpo.
As dez zonas são a zonoterapia, que é um sistema próprio, publicado por FitzGerald e Bowers em 1917. A reflexologia nasceu do estudo desse sistema, e a diferença entre as duas eu explico no artigo sobre zonoterapia. O que ela fez foi partir das zonas e mapear o pé área por área.
O que Eunice Ingham escreveu no livro de 1938
O livro saiu em 1938. Riley a incentivou a escrevê-lo, e ela explica o título com estas palavras:
Escolhi o título singular “Histórias que os pés podem contar” para o meu trabalho porque acredito ser possível aprender muitas informações valiosas por meio do uso da Reflexologia dos Pés.
Mais adiante, ela ensina a encontrar os reflexos com a mão e o pé como régua. A pessoa fica reclinada, e quem atende segura a parte mais estreita do pé, entre a base dos dedos e o calcanhar. Essa faixa representa a linha da cintura: o que está acima dela no corpo aparece acima dela no pé, e o que está abaixo, abaixo. O pé direito corresponde ao lado direito do corpo, e o esquerdo, ao lado esquerdo.
Ela também já escrevia que as pessoas reagem de maneiras diferentes, e que por isso quem atende deve ajustar a duração e a frequência do trabalho. Para quem é muito sensível, recomendava começar com pressão leve. Eu ensino o mesmo até hoje: a sessão se ajusta à pessoa, e não o contrário.
E tem uma frase dela, na segunda página, que eu gostaria que toda reflexologista guardasse:
Não permita que a simplicidade aparente do método lhe retire a importância.
A mão como instrumento
A terapia de zonas de FitzGerald usava instrumentos para pressionar. Eunice Ingham seguiu outro caminho: descobriu que era mais útil trabalhar com o polegar e os dedos. Na escola em que eu me formei, que seguia a linha dela, a gente aprendeu assim, e é o que eu ensino desde sempre: a mão é o único instrumento. Sem óleo, sem rolo, sem bastão.
O que ficou de 1938
Em 1938, a própria autora escreveu que não estava preparada para explicar todas as causas, e pediu que o leitor experimentasse o método. O mecanismo continua sendo estudado. Como eu digo às minhas alunas, hoje a ciência está estudando mais, e nós temos os fatos de quem veio antes. O mapa de Eunice Ingham ficou, e é sobre ele que a reflexologia foi construída.
Também vale dizer o que a reflexologia não faz: ela não faz diagnóstico. O que o pé mostra orienta a sessão e, quando é preciso, o encaminhamento ao médico. A reflexologia é uma prática integrativa e complementar, que caminha ao lado da medicina, nunca no lugar dela.
Eunice Ingham na estrada
Ela não guardou o que sabia. Dedicou mais de quarenta anos à reflexologia, do começo dos anos 1930 até morrer, em 1974, e passou boa parte desse tempo viajando pelos Estados Unidos, ensinando o método com livros, mapas e seminários para milhares de pessoas, de dentro e de fora da área médica. E ensinou também quem não era da saúde, porque entendia que a pessoa comum podia aprender a cuidar de si, da família e dos amigos.
O sobrinho conta que ela guardava cartas de médicos e de faculdades de medicina pedindo informações sobre o sistema dela, e convites para dar palestras. Em 1961, ele e a irmã, que era enfermeira, passaram a trabalhar com a tia em tempo integral. Ela trabalhou até os 80 anos e morreu em dezembro de 1974, aos 85, segundo o sobrinho. Os livros dela foram publicados em sete idiomas.
De Eunice Ingham até o Brasil
A Margarita Gotthold, que me formou em Assunção, foi aluna de Eunice Ingham. Por isso, quando eu digo que o meu mapa é exatamente o que Eunice Ingham mapeou, estou falando de uma linha de quem ensinou quem. Os pontos que eu ensino são mantidos do jeito que ela ensinou.
Num trecho do livro de 1938, que o sobrinho reproduz no fim do livro dele, ela deixou um desejo:
É meu sincero desejo que esta técnica da Reflexologia para Pés e Mãos caminhe junto a outras grandes terapias no caminho ascendente da ciência e do progresso.
A Semana Mundial da Reflexologia existe para que mais gente conheça a reflexologia. E, se ela existe como a gente pratica, é porque Eunice Ingham estudou o pé com cuidado e saiu para ensinar o que via.
Fontes: Eunice D. Ingham, Stories the Feet Can Tell, 1938 (trechos em tradução de trabalho de Rose Cantiero) · Dwight C. Byers, Massagem reflexológica dos pés: o método Ingham original · Inge Dougans, Reflexology: A Practical Introduction · Nicola Hall, Reflexology for Women.


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