A alta veio, o dreno saiu, e a mensagem chega para a reflexoterapeuta que ela frequentava antes do diagnóstico: “e a reflexologia depois da cirurgia de mama, quando eu posso voltar?” Às vezes quem escreve é a filha, que quer levar a mãe e tem medo de fazer mal. A resposta existe, e ela não é um número de dias.
Pode voltar. Pode, inclusive, antes da cirurgia. Foi o que eu disse às minhas alunas no Especial Reflexologia Rosa, o workshop que dei em outubro de 2025, quando falamos do pré e do pós-operatório: “Pode, pode fazer.” E, na mesma fala, a condição: a cliente conversa com o médico, e “ele tem que dar o aval”. A frase que eu ensino a reflexoterapeuta a dizer para a cliente termina assim: “E se ele quiser, ele liga para mim, eu converso, vou explicar para ele o que eu vou fazer.”
A segunda condição é da profissional: “você tem que ter certeza que você tem condições de atender uma pessoa que já passou por uma cirurgia de câncer.” Se a reflexoterapeuta disser que esse caso ainda não é para ela, respeite. Eu ensino que, quando ela recusa porque enxerga o risco, “a pessoa vai ter muito mais respeito pelo meu trabalho”.
Reflexologia depois da cirurgia de mama: quem decide quando volta
Nenhuma das instituições de câncer que eu consultei para escrever este texto dá um prazo em dias para voltar à massagem ou à reflexologia depois da cirurgia de mama. Faz sentido: uma biópsia de linfonodo sentinela não é uma mastectomia com reconstrução, a cicatrização de uma mulher não é a de outra, e há quem comece quimioterapia ou radioterapia logo depois. Quem enxerga isso é a equipe dela. Por isso quem libera é a equipe, e a liberação vem antes da primeira sessão.
Na triagem que eu ensino às alunas, uma das perguntas é se houve cirurgia ou procedimento nos últimos 30 dias. Essa pergunta não marca a data da volta. Ela acende o alerta: se houve cirurgia recente, a sessão espera o processo inflamatório passar e espera a palavra da equipe. É a mesma regra que está em contraindicações da reflexologia: pós-operatório sem liberação médica é espera.
O que muda no corpo depois da cirurgia, e o que muda na sessão
Com a liberação na mão, a sessão acontece, e acontece diferente. As orientações da Breastcancer.org e as cartilhas do INCA para quem operou a mama descrevem o corpo desse período, e cada ponto vira um cuidado na maca:
- Deitada de costas, até o médico liberar a posição de bruços. Nos primeiros dias, o INCA orienta manter o braço do lado operado apoiado num travesseiro, um pouco mais alto que o ombro, e a maca precisa acomodar esse braço.
- A reflexoterapeuta trabalha só nos pés. O braço, a axila e a mama do lado operado não se tocam na sessão de reflexologia. Trabalhar o corpo depois da cirurgia é para quem tem formação em drenagem linfática pré e pós-operatória, e sempre com o aval do médico.
- A cicatriz que ainda está fechando não se toca. A reflexoterapeuta precisa saber onde ela está.
- Se ainda houver dreno, ele fica preso à roupa, como o INCA orienta, e a cliente se acomoda na maca sem que ele seja puxado.
- Braço inchado vai para a equipe e para a fisioterapia. A reflexologia não mexe nele.
O linfedema, esse inchaço do braço, engana pelo tempo. O Memorial Sloan Kettering, centro de câncer de Nova York, informa que ele pode começar logo depois da cirurgia ou meses, até anos depois. O risco fica em torno de 5 a 7% quando se retiram poucos linfonodos, na biópsia do linfonodo sentinela, e de 20 a 25% quando se faz o esvaziamento da axila. Por isso as perguntas “você operou a mama? tirou linfonodos? de que lado?” entram na anamnese mesmo de quem operou há dez anos.
O que a reflexologia oferece nesse período
No workshop, eu dividi em dois momentos. Antes da cirurgia, a mulher está tensa, com medo, emocionalmente abalada, e a reflexologia acalma e reduz a tensão. Depois, ela entra junto com a recuperação: no sono, na circulação, nas dores. Pela experiência de 42 anos, eu disse às alunas que, tanto no pré como no pós, a reflexologia “ajuda muito em dores”. A sessão começa pelo sistema nervoso e, como em toda sessão, a reflexoterapeuta pergunta pelo intestino.
A reflexologia é uma Prática Integrativa e Complementar em Saúde, e complementar quer dizer que soma: o organismo recebe estímulo e direção ao mesmo tempo em que a equipe cuida da recuperação. E o limite, com as palavras que eu uso com as alunas: “nunca promete que você cura, a gente não cura ninguém”. “O objetivo nosso é acolher a pessoa, ajudar a melhorar o estresse dela, e ajudar a aliviar as dores.”
A pesquisa sobre reflexologia nos pés depois da mastectomia é pequena, e eu prefiro contar como ela é. Um estudo coreano de 2010, de Kim e Park, com 32 mulheres, comparou reflexologia com escalda-pés de lavanda para as sensações que ficam depois da cirurgia, como dormência e repuxamento: nos dois grupos a intensidade das sensações melhorou, e só no grupo da reflexologia o desconforto também diminuiu. Um estudo anterior, de 2001, com 28 mulheres no primeiro ou segundo dia depois da mastectomia, encontrou diferença no humor, mas não na dor, entre quem recebeu reflexologia e quem não recebeu. São estudos pequenos, sem divisão aleatória dos grupos descrita, feitos dentro do hospital com a equipe presente. Mostram que o cuidado foi possível ali; não servem de liberação para ninguém.
A ciência ainda não mediu bem o que eu vi e ensino sobre dor no pós-operatório, e eu não vou fingir que mediu. As duas informações ficam lado a lado, cada uma com o seu peso.
Como saber se a volta está sendo feita do jeito certo
Para você, que passou pela cirurgia, ou para a filha que está buscando uma profissional: uma reflexoterapeuta bem preparada faz perguntas antes da primeira sessão. Ela quer saber qual cirurgia foi feita, de que lado, se houve retirada de linfonodos e se ainda há dreno ou cicatriz em fechamento. Pede que a equipe médica libere o atendimento e se coloca à disposição para explicar ao médico o que vai fazer. E deixa claro o que não vai fazer, sem prometer resultado. Quando a conversa começa assim, a volta está sendo feita do jeito certo. O que vale para qualquer pessoa em tratamento está em quem tem câncer pode fazer reflexologia.
A cirurgia muda o corpo por um tempo, e a sessão acompanha essa mudança. A reflexologia depois da cirurgia de mama volta junto com a equipe, pelas mãos de quem pergunta antes de tocar.
Fontes citadas
- Breastcancer.org, “Massage Therapy for Breast Cancer“, revisão de Lexi Harlow, PT, DPT, CLT, atualizado em 21/12/2024 (posição de costas até liberação, cuidado com o braço e a axila do lado operado, cicatriz, cateter, linfedema). Não informa prazo em dias.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA), “Mastologia: orientações fisioterapêuticas“, cartilha, 3ª ed., 2022 (braço apoiado no travesseiro nos primeiros dias; retomada de atividades com orientação médica e fisioterapêutica).
- Instituto Nacional de Câncer (INCA), “Cuidados após cirurgia de mama com esvaziamento axilar: orientações aos pacientes“, 2012 (dreno preso à roupa; cuidados com o braço operado).
- Memorial Sloan Kettering Cancer Center, “Lymphedema After Breast Cancer Treatment” (linfedema pode começar meses ou anos depois; risco de 5 a 7% na biópsia de linfonodo sentinela e de 20 a 25% no esvaziamento axilar).
- Kim DS, Park IS. Foot Reflexology for the Intervention of Sensations after Breast Cancer Surgery: A Single-blind Repeated Measured Pilot Study with Comparison Group of Lavender Foot Bath. Journal of Korean Oncology Nursing, 2010. (32 mulheres; piloto; sem randomização descrita.) (resumo em inglês; texto completo gratuito, em coreano)
- Effect of Foot Reflexology on Patient’s Pain and Mood Following a Mastectomy. Asian Oncology Nursing, 2001; 1(2). (28 mulheres; grupo controle não equivalente; dor sem diferença entre grupos, humor com diferença.) (só o resumo está aberto)
- Macmillan Cancer Support, “Massage or other touch therapies” (2024), e Cancer Research UK, “After surgery” (câncer de mama, 2026): consultados, sem prazo em dias para retomar o toque.


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