Formigamento nos pés depois da quimioterapia: o cuidado que muda na reflexologia

formigamento nos pés quimioterapia — pé desenhado em pontilhismo, com pontos quentes na planta, e a mão da reflexoterapeuta tocando de leve

Escrito por

em

Ela desce do carro na porta de casa e sente o chão diferente, como se estivesse andando de meia fina. Algumas semanas depois, o formigamento nos pés da quimioterapia chegou também à ponta dos dedos das mãos. É a queixa mais comum desse efeito do tratamento: numa revisão brasileira publicada em 2015, dormência e formigamento aparecem em 90% dos casos, e “estar de meia ou de luva” é como muita gente descreve a sensação.

Eu escrevo para ela e para quem está do lado dela, porque a pergunta que vem depois é sempre a mesma: e a reflexologia, pode continuar? Pode, com cuidados que mudam, e com dias em que o pé fica de fora.

Formigamento nos pés da quimioterapia: o que é e quanto tempo dura

O nome é neuropatia periférica induzida pela quimioterapia. Alguns medicamentos afetam os nervos das extremidades: entre eles, os taxanos (docetaxel e paclitaxel), muito usados no câncer de mama, e as platinas (oxaliplatina, cisplatina, carboplatina). Além do formigamento, podem vir queimação, sensação de choque, fraqueza, dificuldade para abotoar uma roupa ou para sentir onde o pé está pisando.

E ela pode durar. Uma revisão de 31 estudos, com 4.179 pessoas com vários tipos de câncer, encontrou neuropatia em 68% no primeiro mês depois da quimioterapia, em 60% aos três meses e em cerca de 30% aos seis meses ou mais. Esse último número tem margem larga, mas o recado é claro: em muita gente, o formigamento nos pés da quimioterapia continua depois do último ciclo, e pode até piorar depois do fim do tratamento.

O cuidado que muda quando o pé sente menos

Eu ensino esse critério às alunas com o pé do diabético, que também perde sensibilidade, e ele vale do mesmo jeito para o pé da quimioterapia. Numa Clínica de Casos, eu disse: “o problema não é a dor, é a ausência da dor”, porque a pessoa pode deixar de perceber uma ferida, uma pressão forte demais ou uma temperatura que machuca. Na reflexologia, isso muda a sessão:

  • Nada de escalda-pés quente. “Lembre que o cliente não vai perceber a temperatura.”
  • Pressão leve, sempre. Quem sente menos não avisa quando dói. E a pessoa em tratamento de câncer, como eu lembrei no workshop de Outubro Rosa de 2025, “já está muito debilitada. Então vamos tomar cuidado (…) com a pressão”.
  • Olhar antes de tocar: a pele, se está ressecada ou vermelha, e a unha, se engrossou ou mudou de cor.

A sessão começa pelo sistema nervoso, o intestino é verificado como em toda sessão, e o pé recebe um toque que não machuca. Sobre o pé do diabético com neuropatia, eu digo às alunas que a reflexoterapeuta “vai oferecer alívio, suporte circulatório, não reverter o dano que já foi feito”. É a mesma honestidade que cabe aqui: a reflexologia soma ao cuidado da equipe, e não desfaz o que o medicamento fez no nervo.

Se é a família que coloca a mão nos pés dela em casa, como eu conto em como ajudar uma amiga com câncer de mama, essa regra vale em dobro: nada quente, nada forte, e olhar o pé antes.

Quando a reflexologia espera, e quando ela vai para a mão

Existe um quadro diferente da neuropatia, e ele pede outra conduta. Alguns tratamentos, como os taxanos e a capecitabina, que é uma quimioterapia oral, podem deixar a pele do pé dolorida e a unha fraca. Com a capecitabina aparece, em parte das pessoas, a síndrome mão-pé: a pele da sola e da palma fica vermelha, inchada, descasca, forma bolha e dói ao pisar. Uma mulher que passou por ela contou no portal Oncoguia: “Deixou meu pé em carne viva, praticamente.” O Cancer Council, da Austrália, é direto: com a pele do pé dolorida e a unha fraca por esses medicamentos, evite a reflexologia.

Pé vermelho, inchado, descascando, com bolha ou doendo ao pisar: nesse dia o pé não é trabalhado, e a equipe precisa saber. Se a mão estiver boa, a sessão pode ir para a mão. Foi o que eu disse numa Clínica de Casos, sobre um pé que não podia ser tocado: “vai na mão. Faz na mão dele, naqueles pontos que você faria naquela região do pé.” Na síndrome mão-pé, porém, o nome já avisa que a mão costuma sofrer junto. Se a palma também estiver vermelha ou dolorida, a sessão espera inteira.

Os sinais que vão para o oncologista, não para a maca

A revisão brasileira de 2015 alerta que muita gente deixa de contar esses sintomas à equipe, e o diagnóstico atrasa. Na prática, estes são os sinais:

  • Tropeçar, ficar instável ao andar ou não sentir bem o chão.
  • Não conseguir abotoar uma roupa, segurar o talher ou escrever como antes.
  • Queimação ou choque que não deixa dormir.
  • Pé ou mão vermelhos, com bolha ou descascando.

A reflexoterapeuta formada pergunta por esses sinais na anamnese e, quando ouve um deles, orienta a cliente a falar com o médico antes da próxima sessão. Dose, pausa e remédio são decisão da equipe.

O que a pesquisa mostra sobre reflexologia e neuropatia

Pouco, e eu prefiro dizer isso com clareza. O estudo mais consistente que existe, um ensaio-piloto turco com 60 pessoas em quimioterapia com oxaliplatina ou taxano, publicado por Kurt e Can em 2018, não mudou a gravidade nem a frequência da neuropatia: melhorou só a parte da sensibilidade. A diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica sobre neuropatia da quimioterapia, de 2020, não recomenda nenhum tratamento de toque. Já a diretriz de dor que a ASCO publicou em 2022 com a Sociedade de Oncologia Integrativa diz que a reflexologia pode ser oferecida na neuropatia da quimioterapia, com evidência baixa e recomendação fraca. A reflexologia não trata e não previne a neuropatia. Eu explico como ler esse tipo de resultado em o que a ciência já sabe sobre reflexologia.

A reflexologia é uma Prática Integrativa e Complementar em Saúde: caminha ao lado do tratamento, nunca no lugar dele. O que ela oferece nesse período é o que oferece a qualquer pessoa em tratamento, com a equipe sabendo: uma sessão que começa pelo sistema nervoso, que respeita o pé que sente menos e que sabe o dia de parar. Com formigamento nos pés depois da quimioterapia, o cuidado certo é o que protege o pé antes de tudo.

Fontes citadas

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *