Tem uma frase que eu ouço com frequência de reflexoterapeutas que já atendem há anos: “eu fiz a anamnese, preenchi tudo direitinho — mas na hora de decidir o que trabalhar naquela sessão, eu congelo.”
Isso não é falha de atenção. É que a anamnese em reflexologia podal foi ensinada como formulário, e formulário não decide nada. Ele guarda informação. Quem decide é o raciocínio que você usa para olhar aquela informação — e é justamente esse passo que quase nenhuma formação ensina.
Em 42 anos de atendimento, eu aprendi que a diferença entre uma sessão que alivia e uma sessão com direção clínica não está na técnica. Está no que você levantou antes de encostar no pé. Se você não tem contexto, você trabalha no escuro.
A anamnese não começa quando você pega a ficha
O trabalho não começa quando você põe a mão no pé da pessoa. Começa muito antes — no momento em que ela entra na sala. No jeito que ela anda, que ela senta, que ela respira.
Ela entrou mancando? Sentou com dificuldade? Está com a respiração curta? Fala acelerada, olhando o relógio, ombros subidos? Nada disso está escrito na ficha, e tudo isso já é informação clínica. A anamnese em reflexologia podal é a soma de duas fontes: o que a pessoa te conta e o que você observa enquanto ela conta.
E as duas precisam ser anotadas. Sempre coloque nas suas anotações aquilo que ela falou e aquilo que você está percebendo sobre ela — porque às vezes o que ela diz não é bem o que você está vendo.
A ordem em que a anamnese levanta a informação muda o resultado da sessão
A maioria das reflexoterapeutas faz a anamnese na ordem em que a cliente fala. Ela chega dizendo “estou com dor no ombro”, e a conversa inteira gira em torno do ombro.
Eu faço na ordem contrária, e essa é a parte que muda tudo. Antes de tudo, eu preciso responder uma pergunta: esse corpo está em condição de receber o que eu quero oferecer?
Primeiro o sistema nervoso — porque um corpo em estado de alerta não consegue receber. Se a pessoa chega acelerada, sem dormir, respirando curto, o corpo dela não vai responder ao que você fizer, por mais certo que esteja o ponto. Nesse caso, regular primeiro não é perder tempo: criar essa condição é a sessão.
Depois o intestino — e esse eu verifico sempre, mesmo quando a queixa parece não ter relação nenhuma com ele. Quando o intestino não está bem, nada no corpo encontra estabilidade. Dor nas duas pernas, cervical que não sai, desânimo sem causa aparente: olhe o intestino antes de qualquer protocolo.
E só então a queixa. Ela não fica de fora — o reflexo da queixa sempre entra na sessão. Mas ela entra sabendo em que terreno está pisando. A queixa é a porta, não o mapa. Se você ainda não leu, esse raciocínio está detalhado em A queixa é a porta, não o mapa.
As perguntas certas revelam o que a cliente não sabe nomear
Aqui está a parte mais delicada da anamnese em reflexologia podal: a pergunta errada devolve uma resposta automática.
Se você perguntar “você dorme bem?”, ela vai dizer que sim. Quase todo mundo diz. Agora pergunte “você acorda descansada?” — e a resposta muda. Porque às vezes ela dorme oito horas e acorda cansada. Aí o sono não é bom, e você acabou de descobrir um dado que a ficha não ia te entregar.
Essa lógica vale para cada informação que você precisa levantar. Em vez de anunciar o que está investigando, você conversa. Pergunta como foi a semana, como anda a alimentação nessa correria, se ela tem conseguido beber água ao longo do dia, se consegue encher bem o peito quando respira fundo. São perguntas de conversa. As respostas são dados clínicos.
E anote com honestidade: não anote o que você acha que a pessoa faz — pergunte. Escreva com as palavras dela, não com a sua tradução. A gente não está ali para julgar nem corrigir ninguém.
O que o pé mostra antes de você começar
Existe uma segunda anamnese acontecendo ao mesmo tempo, e ela não usa palavras. Antes de começar, pare e pergunte a si mesma: o que esse pé está me mostrando antes de eu tocar?
São quatro sinais: rigidez — onde o pé resiste, onde está endurecido; textura — o que a pele e os tecidos mostram, onde está mais áspero ou ressecado; temperatura — áreas mais frias, áreas mais quentes; e sensibilidade profunda — o que responde, o que reage, e também o que não reage.
Pé frio, por exemplo, costuma falar de estresse. Não combina pé frio com cabeça quente. Pé rígido fala de tensão acumulada, de sistema nervoso em alerta. E quando um ponto que deveria responder não responde, isso também é informação — vale parar e pensar por quê.
Esses sinais confirmam ou corrigem o que a conversa levantou. Na reflexologia, a informação que vem da boca e a informação que vem do corpo precisam bater. Quando não batem, é aí que está o caso.
E quando a pessoa chega com dor demais para conversar
Anamnese longa nem sempre é possível — e insistir nela pode ser um erro.
Já atendi gente que chegou com tanta dor que não dava para preencher nada. Nesse caso eu não me estendia: levantava o essencial, resolvia o que estava incomodando mais, e deixava a anamnese completa para a sessão seguinte, quando a pessoa chegasse com menos dor e conseguisse conversar.
Um registro que vale sempre, mesmo na versão curta: peça para ela dar uma nota de 1 a 10 para a dor no começo, e pergunte de novo no fim. É simples e devolve para as duas uma medida do que aconteceu ali.
E tem outro ponto que acontece muito: quando a gente faz a anamnese, nem sempre a pessoa está entendendo tudo o que se passa na vida dela. Ela conta o que acha que tem. O que ela não falou no começo costuma aparecer durante a sessão — e costuma ser justamente o mais importante. Anote também.
A anamnese é o que transforma atendimentos soltos em tratamento
Quando você levanta bem, registra bem e volta a olhar aquele registro, algo muda na sua prática: você começa a enxergar padrões. A mesma cliente, três sessões depois, deixa de ser um caso novo toda vez.
É por isso que “trabalhei os pontos do pé” não diz nada — qualquer um escreve isso. O que tem valor é o que você priorizou e por quê. Quanto mais você escreve, mais você enxerga.
A anamnese em reflexologia podal não é burocracia antes do trabalho de verdade. Ela é o trabalho — a parte dele que decide tudo o que vem depois. E é ela que separa a reflexologia aplicada por protocolo da reflexologia conduzida com direção.
O que eu abro antes de tocar em qualquer pé
Sistema nervoso, intestino, queixa — nessa ordem. É o raciocínio que eu uso há 42 anos e que organizei em As 3 Gavetas: quatro aulas, o quadro de maca para deixar do lado enquanto você atende e o guia com as perguntas de cada gaveta, incluindo como perguntar sem anunciar para a cliente o que você está investigando.
Prefere começar pelo material gratuito? Baixe o Checklist de Raciocínio de Sessão.


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