Quem tem câncer pode fazer reflexologia? O que a equipe médica precisa saber antes

quem tem câncer pode fazer reflexologia — mãos da reflexoterapeuta segurando o pé de uma mulher em tratamento

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A pergunta costuma chegar de lado, quase pedindo licença: “minha mãe está fazendo quimioterapia, eu queria levar ela para fazer reflexologia, pode?” Ou vem da própria mulher, já na maca, depois de dez minutos de conversa: “eu preciso te contar, eu estou em tratamento de câncer de mama.” Nas duas cenas mora a mesma dúvida, quem tem câncer pode fazer reflexologia, e ela merece uma resposta inteira, não um “pode” nem um “não pode” atirado de longe.

Pode. Com duas condições que eu repito às minhas alunas e que não se negociam: quem aplica precisa ser reflexoterapeuta formada, que aprendeu quando e em que momento pode fazer, e a equipe médica precisa saber. Sem essas duas, a resposta é não.

Quem tem câncer pode fazer reflexologia: a regra que não muda

O médico da pessoa tem que saber o que está sendo feito, e a reflexoterapeuta se coloca à disposição para explicar, se ele quiser entender. Isso não é formalidade. Durante um tratamento oncológico o corpo passa por fases muito diferentes: o dia da quimioterapia não é igual ao terceiro dia depois dela, a pele em radioterapia não é a pele de sempre, e existem exames de sangue que mudam o que se pode ou não fazer com o pé. Quem está do lado de fora não enxerga isso. O médico enxerga. Por isso ele fica sabendo antes, e não depois.

Eu e meu marido atendemos, no passado, uma pessoa em fase final da doença, com o médico junto e com a autorização dele, e ela conseguiu passar os últimos dias sem dor. Foi ali que eu entendi de vez o lugar da reflexologia nesse período: ao lado do tratamento, nunca no lugar dele.

O que a reflexologia faz nesse período, e o que ela não faz

Começo pelo que ela não faz, porque é o que evita o erro mais grave. A reflexologia não trata câncer. Quem disser o contrário está colocando a pessoa em risco. Ela é uma Prática Integrativa e Complementar em Saúde, reconhecida pelo Ministério da Saúde, e complementar quer dizer exatamente isto: caminha ao lado do médico, do exame e do remédio.

E existe um medo antigo que eu preciso desmontar aqui, porque ainda circula: o de que a massagem no pé poderia “espalhar” o câncer. Não existe isso. As grandes instituições de câncer que estudam o assunto dizem o mesmo, com todas as letras: não há evidência de que massagem ou reflexologia espalhe o câncer.

Agora o que ela faz. A reflexologia aparece por nome nas diretrizes da Sociedade de Oncologia Integrativa com a ASCO, a principal sociedade de oncologia clínica do mundo: a de 2022, sobre dor, recomenda a reflexologia para a dor sentida durante o tratamento com medicação, e a de 2023 a inclui entre as opções para ansiedade e depressão durante o tratamento, com recomendação fraca, por falta de estudos grandes. Eu escrevi sobre esse peso exato em o que a ciência já sabe sobre reflexologia e o que ainda não sabe. E o centro americano de pesquisa em saúde integrativa registrou, ao comentar um estudo com 385 mulheres com câncer de mama avançado, que a reflexologia pode ser segura mesmo para as pessoas mais fragilizadas. O que as pessoas em tratamento contam, e a Cancer Research UK registra a mesma frase, é que saem da sessão mais tranquilas e mais capazes de lidar com o dia a dia do tratamento. É isso que a reflexologia oferece nesse período. Não é pouco, e não é mais do que isso.

Os sinais que pedem conversa com a equipe antes de tocar

Uma reflexoterapeuta formada pergunta antes de colocar a mão. Se a pessoa está em tratamento, ela pergunta ainda mais. Estes são os sinais que pedem uma conversa com a equipe médica antes da sessão, e em alguns casos pedem espera:

  • Suspeita de trombose ou coágulo na perna. Essa é a única em que não existe meio-termo: não se atende até o médico descartar.
  • Plaquetas baixas nos exames. A pessoa sangra e fica roxa com mais facilidade; a pressão precisa ser outra, ou a sessão espera.
  • Ferida, úlcera, micose ou pele muito dolorida nos pés. Alguns quimioterápicos deixam a sola do pé sensível e a unha fraca; nesse período o pé não se trabalha.
  • Pele em radioterapia, durante e nas semanas seguintes.
  • Cateter ou port perto da região: não se toca ali.
  • Braço ou perna inchados por linfedema. O membro inchado é da fisioterapia; a reflexologia não mexe nele.
  • Febre ou infecção ativa. Não é o momento, como eu explico em contraindicações da reflexologia.

Se você é a pessoa em tratamento, ou a filha, a irmã, a amiga que está procurando, use isto como termômetro: a reflexoterapeuta perguntou em que fase do tratamento você está, quais remédios toma, como estão os exames? Pediu para a equipe médica saber? Explicou o que vai fazer e o que não vai fazer? Se a resposta for sim para as três, você está em boas mãos. Se ela prometeu que a reflexologia vai ajudar o tratamento a “funcionar melhor”, é sinal para procurar outra profissional.

O que muda para quem está do lado de fora

Quem pergunta se quem tem câncer pode fazer reflexologia quase sempre está querendo ajudar alguém que ama e não sabe como. A resposta é sim, com a equipe médica sabendo e com uma profissional que saiba o que está fazendo. E existe um segundo caminho, que eu conto em como ajudar uma amiga com câncer de mama: o que as próprias mãos da família podem fazer em casa, com orientação, no meio do tratamento.

A reflexologia é um trabalho profundo, feito com a mão, num corpo que responde. Num corpo que está em tratamento, ela pede mais estudo, não menos. Você só consegue explicar aquilo que realmente entende.

Fontes citadas

  • Mao JJ et al. Integrative Medicine for Pain Management in Oncology: Society for Integrative Oncology–ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, 2022 (dor durante a terapia sistêmica).
  • Carlson LE et al. Integrative Oncology Care of Symptoms of Anxiety and Depression in Adults With Cancer: SIO–ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, 2023.
  • National Center for Complementary and Integrative Health (NIH), “Reflexology”: comentário sobre o ensaio de Wyatt et al., Oncology Nursing Forum, 2012 (385 mulheres com câncer de mama avançado).
  • Cancer Research UK, “Reflexology” e “Massage” (2022); Macmillan Cancer Support, “Massage or other touch therapies” (2024); Cancer Council NSW, “Reflexology” e “Massage” (2026): segurança, precauções (coágulo, plaquetas, cateter, área irradiada, linfedema, pele dolorida por taxanos e capecitabina) e o mito de que massagem espalha o câncer.
  • Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 849, de 27 de março de 2017 (inclusão da reflexoterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares).

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